J. B. Oliveira

       

Ela o chamou pelo nome completo? Hum...!

J. B. Oliveira

No imenso universo do relacionamento interpessoal – e mesmo considerando que somos hoje mais de 7 bilhões de seres humanos no mundo – muitas coisas são tão comuns que parecem ter acontecido em nossa casa!

Um amigo dizia ao outro: “minha mulher é incrível: quer falar comigo nos momentos mais impróprios, como de decisão de campeonato; está sempre reclamando de tudo, das crianças, da empregada, do elevador; fica brava quando chego mais cedo em casa e vira bicho quando chego tarde; odeia quando assisto aos jogos de futebol; quer o domínio do controle remoto; não tolera que eu beba uma cervejinha com os amigos...” Espantado, o outro diz: “Espere aí: você está falando da sua mulher ou da minha? ”

De fato, é no convívio do lar que geralmente tais coisas acontecem...

Esta, por exemplo, é uma das situações que mais ocorrem com o casal: no dia a dia, ela chama ele sempre pelo apelido ou pelo diminutivo: Zé, Quim, Edu, Cacá... e está tudo bem. Às vezes, o chamamento pode ser pelos tradicionais “benhê”, “amor”, “querido”, “vida” e também está tudo bem...

Agora, quando ela se dirige a ele pelo nome completo: “José Pereira de Andrade”, por exemplo, ou – pior ainda – “Senhor José Pereira de Andrade”, já não está tudo bem não! Se a isso ela somar e frisar o grau universitário que ele possui, como: “DOUTOR José Pereira de Andrade”, é sinal inequívoco de tempestade (o mais das vezes em copo d’água, convenhamos, mas não deixa de ser tempestade, com raios e relâmpagos!) ...

O que se observa aqui é o chamado processo conotativo da comunicação, usado especialmente pela mulher. O homem tende a ficar mais no denotativo. Neste, as palavras têm aplicação literal: são o que são e nada mais do que isso! Se ele diz “não tenho roupa”, significa que está praticamente nu!

Já no conotativo, a linguagem é figurada, e o sentido se descola da forma: uma coisa é o que é dito e outra, o que se quer dizer, ou pior ainda: o que deve ser entendido.

Ao serem convidados para uma festa, ele recorre a seu singelo guarda-roupas, em que tem dois ternos: um claro e outro escuro, e dois pares de sapato: preto e marrom e está pronto para o que der e vier. Ela abre as muitas portas de seu móvel, vê todas as roupas e calçados ali dispostos, das cores mais inusitadas – como nude, fúcsia, ráfia, magenta, flamingo real etc. – e exclama choramingando: “Não tenho roupa nem sapato! ”

Ele fica pasmo! Como, com tantas peças de vestuário e calçado, pode ela afirmar isso?

Aí está: interpretando a conotação, a frase seria: “Estas roupas não estão adequadas ou atualizadas para essa bendita festa. Já as usei em outras ocasiões festivas, e todos (na verdade: TODAS!) já as conhecem...

Nessa mesma linha, quando ela deixa o modo afetivo de chamá-lo e parte para o nome completo, está dando a conotação – e quer que ele entenda – de que está aborrecida, contrariada com alguma coisa que ele fez...!

Todo homem já passou por isso ...e o mais grave é que, em muitos casos, sequer imagina o porquê da irritação!

Bem, a razão disso se deve a outra peculiaridade da mulher: seu cérebro é atemporal: não tem limites intransponíveis de presente, passado e futuro ...!

Ele chega em casa e a encontra à beira de um ataque de nervos... com ele! O que normalmente faz? Rememora todas as suas ações do dia, indagando a si mesmo “O que foi que eu fiz hoje? ” e não acha nada...

Nem poderia! É que não foi nada do que ele cometeu hoje! Foi há uns10 anos!

Só que ela lembrou disso hoje!

 

 

*Dr. J. B. Oliveira, Consultor Empresarial e Educacional, é

Advogado, Professor e Jornalista. Pertence à Academia Cristã

de Letras e ao Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo

www.jboliveira.com.br

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