J. B. Oliveira

“Fale agora ou cale-se para sempre...”

                                                                                                                                                     J. B. Oliveira

Esta é uma das mais conhecidas e repetidas frases pronunciadas em cada casamento: “Se alguém se opõe a este matrimônio, fale agora ou cale-se para sempre”! É o momento próprio para quem quiser dar uma de Wanderleia e exclamar: “Senhor juiz, pare, agora! Por favor, pare, agora”!

 

Padre Ivan, que há 32 anos realiza cerimônias de casamento, conta que em todo esse tempo já viu muita coisa acontecer, mas ainda não presenciou nada desse tipo, que chegasse a interromper um casamento. “Além das palavras, são necessárias provas, como uma foto, por exemplo. Diante das provas, sou obrigado a parar a cerimônia”, diz ele, e narra o caso de um casamento que terminou antes de começar, porque ainda no curso de noivos uma pessoa mostrou fotos da noiva com outro homem! Outro, ainda pior, ocorreu em um casamento que já estava acontecendo quando entrou na igreja ninguém menos que a atual esposa do noivo, acompanhada da amante dele! “Parecia coisa de filme, mas foi tudo comprovado e não teve como continuar”. É bem verdade, lembra ele, que no mês que antecede o matrimônio, é afixada na igreja em que a celebração vai acontecer uma espécie de aviso chamado proclama. “No proclama, avisamos que os noivos vão casar e perguntamos se alguém sabe de algo que impeça a cerimônia que vai acontecer. Isso ajuda a não haver transtornos no altar”, finaliza ele. Agora, cá entre nós, quem é que lê proclamas de casamento? Só mesmo quem esteja diretamente interessado no casório... Mas ainda assim, pode ser que esse interessado – ou interessada – prefira fazer a impugnação no altar, em grande estilo...

 

Voltando à frase inicial “Fale agora ou cale-se para sempre”, parece que a mulher, nesse instante, se lembra do velho axioma matemático preconizado pelo italiano Giuseppe Peario, no século XIX, que afirma: “A ordem dos fatores não altera o produto” e então pensa: em vez de falar agora e calar para sempre, posso calar agora e falar para sempre!

E é o que ela faz! Durante toda a cerimônia, profere apenas um singelo “sim” e mantém-se calada. Então, a partir dali, vai falar para sempre!

Os índices variam, mas é pacificamente aceito que a mulher dispõe de muito mais termos comunicacionais do que o homem! A relação mais razoável assegura que ela dispõe de cerca de 11.000 contra 7.000 dele... Uma consequência direta desse fato é que, ao fim do dia, ele terá esgotado seus 7.000 vocábulos, e só quer uma coisa, que Tim Maia, com seu vozeirão, assim cantava: “Eu quero SOSSEGO”!

Ela, entretanto, ainda tem um estoque da ordem de 4.000 vocábulos... para usar com ele! É quando pode acontecer o início de um conflito conjugal: ele querendo sossego, silêncio e introspecção e ela tendo necessidade de falar, contar coisas do dia, dos filhos, da empregada, do supermercado, da relação...

Ricardo Fabrízio, meu filho, entre outras atividades que exerce, é mestre de cerimônias e celebrante de casamentos. Nas solenidades nupciais, preocupa-se em dar características próprias, individuais, a cada casamento. Para viabilizar isso, colhe informações dos nubentes sobre sua história, do namoro até o grande momento. Recentemente, pediu aos noivos que escrevessem um texto sobre como se deu relacionamento entre ambos. Ela lhe entregou três folhas, frente e verso. Ele, apenas meia!

 

*J. B. Oliveira, consultor de empresas, é advogado, jornalista, professor e escritor.

É membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Cristã de Letras.

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